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“A primeira geração de youtubers paga o preço”

A produtora de conteúdo Jéssica Tauane, que falará sobre diversidade no SXSW, revela os desafios de equilibrar causas e marcas

Luiz Gustavo Pacete
9 de março de 2017 - 15h27

JessicaTauane

“Já recusei muitas campanhas que não respeitavam meu estilo. Já disse muitos nãos para conseguir dizer alguns sins”

Ao ir ao campo de busca da programação do SXSW e digitar diversity mais de vinte resultados vão aparecer. Se a palavra em questão for youtuber serão mais de quinze. Youtuber e diversidade, dois temas que vão estar em foco na área de Conference & Festivals neste ano cuja brasileira Jéssica Tauane, criadora dos canais Gorda de Boa e Canal das Bee, será a palestrante de uma das apresentações. Convidada pela Avon, Jéssica vai comentar a campanha estreada pela marca, em junho do ano passado, durante o Dia Internacional do Orgulho LGBT, quando foi lançada uma campanha ressaltando a diversidade e não utilizou a identificação de gênero.

Para Jéssica Tauane, que  está no YouTube desde 2012, produzir conteúdo falando de causas também é trabalho que precisa ser monetizado, e a presença das marcas neste contexto é de fundamental importância. “Se só a ferramenta monetizasse seria lindo. Só ganha dinheiro dessa forma quem tem milhões de seguidores. E, apesar de tudo, o que fazemos é trabalho, logo, precisamos contar com o mercado publicitário”, diz Jéssica.

Sobre a expectativa em relação a falar do tema diversidade em um momento de ondas conservadoras representadas por Donald Trump – tema que deve permear o festival – a youtuber se diz apreensiva. “Espero que dê tudo certo no SXSW e que ninguém seja preso. Espero que voltemos todos vivos (risos). Não sei bem o que esperar, acho que as coisas estão chegando a um ponto muito delicado. O conservadorismo me deixa apreensiva”, conclui. Além das ações com marcas, Tauane ampliou sua presença em discussões sobre diversidades tanto em eventos como o TED quanto em ações da Globo, por exemplo.

A diversidade brasileira mostrada aos gringos
Espero que dê tudo certo no SXSW e que ninguém seja preso. Espero que voltemos todos vivos (risos). Não sei bem o que esperar, acho que as coisas estão chegando a um ponto muito delicado. O conservadorismo me deixa apreensiva. Muitas das conquistas relacionadas à diversidade e liberdade de direitos incomodam o poder estabelecido. E quem tem esse poder, muitas vezes, fica puto. Independentemente do contexto, é sempre importante defender a diversidade e se organizar coletivamente. Cada produtor de conteúdo vai ter seu jeito de falar sobre a questão da diversidade.

“Espero que dê tudo certo no SXSW e que ninguém seja preso. Espero que voltemos todos vivos (risos). Não sei bem o que esperar, acho que as coisas estão chegando a um ponto muito delicado”

Diversidade vende, diversidade está na moda, diversidade está em alta
Diversidade está na moda e tentamos cada vez mais fazer moda para mais gente. Temos que entender que por mais que se fale do assunto existe uma estrutura por trás do preconceito. Quando o cara me xinga na rua existe toda uma estrutura por trás dele. Está nas nossas mãos, me refiro à minha geração, falar cada vez mais sobre o assunto. Fazemos parte de um movimento que, por acaso, conta com uma plataforma de distribuição.

Google e Facebook, confiar ou não confiar?
Isso é papo de tubarão e eu sou um peixe pequeno. São duas empresas bilionárias que sei lá eu o que está por trás. A gente fica dançando conforme a música que eles tocam. O que conseguimos fazer é ampliar o diálogo. Tanto Google quanto Facebook possuem grupos de funcionários LGBT que se organizam para dialogar conosco. Eles chamam a gente para a conversa. Temos problemas como pessoas que analisam conteúdo no Facebook que precisam lidar com os ataques a páginas de diversidade. É um movimento de diálogo que se amplia.

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Causas, marcas e dinheiro no bolso
O youtube não paga o trabalho por si só de canais de nicho. Se só a ferramenta monetizasse seria lindo. Só ganha dinheiro dessa forma quem tem milhões. E, apesar de tudo, o que fazemos é trabalho, logo, precisamos contar com o mercado publicitário. Seria lindo se eu conseguisse produzir conteúdo sem contar com isso. Agora, eu também entendo que o mercado publicitário informa. Logo, dá para contribuir para que ações de marcas deixem de ser machistas e lesbofóbicas. A gente está tentando, fomos pioneiros nesse negócio e somos a primeira geração a criar conteúdo na internet. Isso tem um preço. A primeira geração de youtubers paga o preço.

O uso do tema diversidade pelas marcas
As marcas não são fim, elas são meio. O lance nessa relação é ser sempre sincera. Vou fazer maquiagem? Tem que ser do meu jeito, assumindo que eu não sei passar maquiagem. Tem que ser muito claro a questão do merchan. Nosso público é inteligente, ele entende que é isso que mantém nosso trabalho. Já recusei muitas campanhas que não respeitavam meu estilo. Já disse muitos nãos para conseguir dizer alguns sins.

Relação de marcas e youtubers
Muitas marcas impõem ou sugerem coisas que muitas vezes não fazem sentido. O legal é sentar e conversar, entender se o canal é o lugar certo para falar sobre determinada marca. Comparados a outros canais gigantes, nós, youtubers de nichos recebemos praticamente propostas de micharia, mas nem por isso deixamos de dispensar propostas que não fazem o menor sentido.

“Já recusei muitas campanhas que não respeitavam meu estilo. Já disse muitos nãos para conseguir dizer alguns sins”

Ação da Avon focada em diversidade que contou com a participação de Jéssica

 

Neste TEDx Talks de 2016, Jéssica Tauane fala sobre descontrução de padrões de beleza

 

 

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