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SXSW já ensina algo desde o avião

Estou na aeronave rumo a Austin para fazer a credencial um dia antes, como o protocolo e o site mandam, e a expectativa só aperta mais o nó da garganta


8 de março de 2018 - 16h14

(Crédito: reprodução/Pexels)

Todos que vão para o festival se unem em um só coro, regido pelo tom da ansiedade. Estou na aeronave rumo a Austin para fazer a credencial um dia antes, como o protocolo e o site mandam, e a expectativa só aperta mais o nó da garganta de quem é n00b como eu, que está indo pela primeira vez para lá.

Nos meus primeiros minutos a caminho de um abismo sem vista chamado “fomo”, sei que vou viver o melhor e o pior do imprevisível e talvez ampliar a minha capacidade de fazer sinapses à base de taco e barbecue.

E eis que vem um cara na minha fileira usando o kit geek completo: camiseta preta + jeans + Nike confortável, além de uma mochila bem murcha pra quem está indo pro SXSW. Ele, muito educado e simpático, perguntou se eu ia pra lá também. Confirmei, dizendo que o avião inteiro deveria estar fazendo o mesmo, afinal, todos usavam óculos de acetato (essa última parte não falei em voz alta).

Naquele momento, me bateu um sentimento maneiro de estar participando de uma grande excursão cheia de brasileiros que, de alguma forma, se conectavam comigo e com Pelayo, que já se acomodava na janela enquanto eu amargurava o assento do meio e a divisão de apoio de braços.

Continuei, dizendo que devia estar cheio de publicitários (eu) e empresários de tecnologia (Pelayo, supus) em nosso voo, mas ele não me deixou terminar, “eu sou advogado”.

Enquanto me recompunha da bolha estourada por Pelayo, catando todos os cacos da minha cara no chão, segui ouvindo que ele advogava por startups. Lógico, startups também contratam advogados, e profissionais como Pelayo precisam, talvez até mais que outros tipos de advogados, se atualizar às pressas sobre o que influencia a legislação e os direitos da indústria de seus clientes. No meio da minha divagação, ele disse que estava viajando pela empresa, e dessa vez já não era mais de business (na verdade, não estava mais falando comigo, era a ligação com seu pai pelo celular). “É, pai, dessa vez já não é mais aquela coisa, agora é startup(rs)”, comentava animado demais pra quem fez um downgrade de business para econômica. Mas talvez Pelayo estivesse contente por algum upgrade de vida. Ele contava animado para a namorada, ao celular também (eu não tenho vergonha de ouvir as conversas dos outros), que ia fechar alguns acordos e que aí, sim, eles poderiam fazer aquilo que ela falava toda animada do outro lado da linha.

O grupo da excursão estava quase fechado quando: “Deus, o cara do Choque de Cultura!”. Agora Pelayo falava comigo de novo, mas a miopia não me permitia confirmar. No auge de sua tietagem, Pelayo se contorcia na cadeira: “É ele, não é? Puxa, eu tirei uma foto com ele no Startup Weekend.” Fiz uma cara de “juro que acredito em você, cara”, e antes que me mostrasse a prova no celular para não passar por mentiroso, falei: “Eu não consigo ver, mas se você está desconfiando, é bem provável que seja ele, sim, afinal, estamos indo pra Austin!”

Sempre me disseram que o “keep Austin weird” era o mais legal da experiência off-tracks do SXSW. Me contaram de gente tocando piano no meio da rua, mulher maravilha pedalando por aí, uns caras usando cabeça de unicórnio por ali.

Mas eu acho que o mais interessante até agora, em meus 40 minutos de experiência rumo ao festival, sem sequer pisar numa palestra, é pensar que gente como o Pelayo está indo pra lá para entender questões como a ética da biotecnologia aplicada em humanos, ou até onde vai a responsabilidade de carros autônomos e a segurança das pessoas oferecida pelos governos que monitoram suas identidades.

Não sei se o cara do avião era do Choque Cultural. Talvez tenha sido apenas outro advogado, feliz por estar na classe econômica, furando a bolha de outras pessoas.

A partir de hoje, estarei acompanhando o festival e trarei aqui no M&M o que vi na conferência e talvez mais conversas que ouvi pelo celular dos outros.

*Pelayo é um nome inventado pela autora, para preservar a identidade do fã do Choque Cultural.

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