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Terapia hi-tech: alucinógenos e plataformas para saúde mental

A retomada de pesquisas com psilocibina, o mapeamento de comportamento em redes sociais e a aliança entre indústria de saúde e de bens de consumo se mostram tendências para auxiliar o tratamento de doenças como depressão e esquizofrenia

Karina Balan Julio
10 de março de 2018 - 15h53

Nesta sexta-feira, 9, um dos painéis disputados da sessão de saúde do SXSW abordou a combinação da tecnologia e substâncias presentes em drogas alucinógenas para o tratamento de transtornos mentais, como esquizofrenia, ansiedade crônica e depressão. Se a cannabis já foi indicada como um potencial elemento para o tratamento de pacientes em quadros críticos, o assunto da vez foi a psilocibina, enteógeno presente em cogumelos alucinógenos.

A substância era usada na medicina tradicional asteca e entre os anos 60 foi tema de inúmeras pesquisas sobre suas propriedades psicológicas. Também ficou conhecida pelo consumo junto ao LSD e associada ao movimento hippie nos anos 70. As pesquisas sobre a aplicação da psilocibina na medicina, contudo, perderam força nas décadas seguintes e só foram retomadas a partir dos anos 2000. Nos últimos anos, pesquisas independentes têm mostrado efeitos positivos da substância em grupos-controle.

Foto: Reprodução

Um destes estudos iniciais está sendo conduzido pela Compass PathWays, empresa britânica que realiza pequenos testes clínicos com a psilocibina, combinados ao uso de tecnologia digital para monitorar a reação dos pacientes.

George Goldsmith, chairman da empresa, participou do painel “Healing the mind: design, tech e psychedelics”. Seu interesse sobre tecnologia e saúde mental veio de uma motivação pessoal: um de seus parentes tinha depressão severa e, apesar dos múltiplos tratamentos e do apoio dos melhores profissionais, não melhorou.

“A experiência para os pacientes de transtornos mentais muitas vezes é fragmentada, pois eles dependem das medicações todos os dias e precisam tomá-las várias vezes. A conversa para o futuro passa a ser sobre como combinar terapêuticos poderosos com a tecnologia, para criar uma experiência melhor para o consumidor”, disse. A abertura dos agentes governamentais para as pesquisas com psilocibina também tem facilitado a realização de testes com microdoses da substância.

O ativo atua sobre um receptor específico da serotonina no cérebro, regulando processos associados às experiências psicológicas. “Temos trabalhado com agentes reguladores, e vemos que estão muito preocupados com o estado atual da saúde mental, que é um problema de cerca de US$ 400 bilhões de dólares por ano”, acrescentou.

Do divã ao design

Muito embora as redes sociais sejam consideradas gatilhos para quadros de depressão e ansiedade atualmente, alguns de seus mecanismos podem ser aplicados em novos produtos digitais complementares aos tratamentos convencionais. Danielle Scholosser, cientista de pesquisa clínica na Verily, antiga Google Life Sciences, trabalhou em instituições psiquiátricas e atualmente trabalha para criar aplicativos de mapeamento de sintomas iniciais e na criação de “redes sociais” para conectar pessoas com experiências em comum.

“No início tentávamos entender qual era a linha que separava uma experiência terapêutica online, como uma rede social para pessoas com esquizofrenia, e o Facebook, por exemplo. No fim, descobrimos que as pessoas que sofrem com transtornos mentais querem se conectar com outras que passam pelo o que elas passam. Há uma certa exclusividade para aquela experiência”, disse durante o painel.

Uma das iniciativas da Verily é o Prime, aplicativo experimental que conecta pessoas com esquizofrenia e depressão. “A ideia era criar uma comunidade segura para que as pessoas possam falar do assunto”, diz Danielle.O app também pede feedbacks dos usuários sobre suas interações :uma foto tirada em determinado contexto pode ser categorizada como um momento positivo, neutro ou negativo pelo usuário, e assim a plataforma pode ajudar a mapear padrões de comportamento.

Plataformas com interface dinâmica, que adaptam seus padrões de navegação, cores e sons de acordo com os sinais vitais (postura, movimento dos olhos, batimentos cardíacos), foram apontadas como uma tendência, não só em saúde, mas também para a indústria de bens de consumo. Silvia Vergani, gerente de pesquisa em design da Ideo, empresa de aplicações digitais para saúde, afirma que a indústria de saúde tem muito a aprender com plataformas de outros segmentos.

“Embora esperemos que a inovação venha da indústria de saúde, muitos dos projetos de design que são bons para pessoas com transtornos mentais vêm da indústria de bens de consumo e mobilidade. Pessoas com depressão, por exemplo, normalmente não sairiam de casa, e com aplicativos de mobilidade elas têm um a barreira a menos para sair, simplesmente porque são mais fáceis de navegar”, exemplificou.

Eventualmente, ela acredita que a indústria farmacêutica e o segmento de saúde vão começar a se aliar com empresas de tecnologia para mapear sinais primários de doenças com a ajuda de Inteligência Artifical – identificar comportamentos sintomáticos em fotos e mensagens-, e até mesmo criar produtos para o público geral. “Da mesma forma que pessoas com depressão tendem a procrastinar por conta da doença, pessoas que não sofrem com ela também procrastinam, e a partir daí é possível criar um processo de design thinking que evite isso em uma interface”, argumenta.

Danielle, da Verily, defendeu ainda o envolvimento de grandes plataformas no tema da saúde mental e relembrou projetos como Compassion Team, do Facebook. No início deste ano, a plataforma montou um programa que usa inteligência artificial para identificar expressões de texto e indicativos de pensamentos suicidas em postagens dos usuários. A companhia está desenvolvendo um sistema de prevenção em diferentes e idiomas e trabalhando em ferramentas de prevenção de suicídio também no Instagram.

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