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O Brasil está aqui com visto B1 ou B2?

Se os brasileiros realmente estão invadindo Austin, por que tão poucas empresas e speakers brasileiros estão presentes no SXSW?


13 de março de 2018 - 16h12

Se os brasileiros realmente estão invadindo Austin, por que tão poucas empresas e speakers brasileiros estão presentes no SXSW?

Em um evento que discute assuntos tão diversos, tecnologias inovadoras e atrai palestrantes de todos os níveis, cada um de nós está destinado a ter uma experiência diferente por aqui. Os geeks podem pirar, os publicitários podem se reeducar, os clientes podem se inspirar, mas todos eles também podem passear, reclamar, tuitar, tietar, fotografar, almoçar e badalar. Mas quantos vêm aqui realmente para mudar? Westworld, NASA, Bernie Sanders, alienígenas, Lena Dunham, Elon Musk, viagens a Marte. Todos assuntos muito interessantes, todas personalidades cativantes, mas eles realmente vão mudar a forma como você vai criar a próxima campanha, escrever o próximo brief, escolher sua próxima agência?

Faz 20 anos que comecei a trabalhar com publicidade digital, e a sensação hoje é de que na verdade estamos regredindo. Sim, o mercado cresceu. Sim, as verbas de publicidade destinadas a este meio se multiplicaram. Sim, hoje temos muito mais dados que comprovam a efetividade da mídia. Sim, hoje são milhões de pessoas de todas as classes e idades acessando a internet pelas mais diversas plataformas. E mesmo assim a resistência à inovação ainda domina o nosso mercado. As razões mudaram: temos que cortar custos para entregar números; o grande canal para emocionar o público ainda é a TV; Facebook e Google estão acabando com a qualidade da publicidade no Brasil.

Desculpas sempre vão existir, mas hoje me convenci de que somos a geração da transição, somos os últimos que se aproveitaram dos tempos áureos da publicidade, quando se ganhava muito dinheiro e realmente produzíamos um trabalho incrível. Eu tive o privilégio de trabalhar por 11 anos em uma agência que fazia campanhas divertidas, populares, engajadoras e ao mesmo tempo construía marcas que se tornaram líderes em seus segmentos com muita influência da sua comunicação. Mas passou. Acabou. Quando chegamos ao pico, decidimos não mudar. E aí os salários diminuíram, as verbas encolheram, as pesquisas se multiplicaram e com tudo isso o nível da propaganda piorou. Em todas as mídias. TV, print e mesmo o meio digital também parou no tempo. É a realidade. E o principal sinal dessa decadência é a nossa falta de influência no mercado global. Sim, ainda somos uma mão de obra muito valorizada globalmente. Trabalhamos muito sem reclamar e, sim, somos talentosos e temos nossos minutos de fama nos prêmios.

Mas por que perdemos o bonde? Por que fomos acuados? Por que encolhemos? Por que estamos correndo o risco de nos tornar irrelevantes?

Temos medo de mudar. Não lidamos bem com o desconforto. Valorizamos a segurança acima de tudo. Culpem os trópicos, os portugueses, a igreja católica ou as nossas praias maravilhosas. A verdade é que não exploramos nosso país, nos concentramos em poucas cidades, não deixamos nossos empregos e não investimos o nosso dinheiro em novos negócios.

Voltando a Austin, por que cinco pessoas da mesma agência se sentam para ver a mesma palestra? Por que tentamos chamar todos os nossos amigos para a palestra onde estamos? Por que em uma cidade com dezenas de bares e restaurantes nos juntamos todos para beber no mesmo jardim? O festival SXSW nasceu para reunir grupos que buscavam uma linguagem alternativa na música e na cultura em torno da tecnologia. O festival cresceu. Muito. E com eles vieram as marcas, as filas, as celebridades. Alguns podem dizer que ele não é mais o mesmo, que virou mainstream. Ele cresceu sim mas para mim o espírito hacker sobrevive (one who looks for alternative ways by using his technical skills to overcome a problem) e cabe a nós exercitar essa busca pelo novo, pelo diferente.

Não venha a Austin buscando o conforto, a diversão, as palestras de autoajuda, os amigos, os posts ou pelo seu currículo. Venha ao SXSW para buscar o incômodo, para aprender algo novo, para conhecer a sua próxima carreira, para descobrir como mudar a sua empresa. Para se sentir o menos inteligente da sala. Para mudar. Para mudar. E volte ao Brasil para mudar.

Aproveite esta oportunidade para romper com o padrão imposto pela nossa cultura. Não foi só a casualidade que nos colocou nesta posição em que estamos hoje. Nas cordas. Com cada vez menos opções à mão para determinar o nosso futuro. Levem para casa este espírito do SXSW e vamos “hackear” o mercado, “hackear” as nossas profissões e ter coragem para buscar e optar por soluções alternativas.

Se você não voltar excitado, incomodado, perturbado é porque você não veio para ouvir. Você veio para conhecer o inimigo. Neste caso, você só desperdiçou uma verba valiosa da sua empresa e, se ela não mudar, vocês vão se arrepender de ter gasto esses dólares. A tecnologia não é o inimigo, é simplesmente a evolução. E eu não apostaria contra ela.

Em 1997, Gary Kasparov, o Michael Jordan do xadrez, era considerado um gênio imbatível. Ele era campeão mundial e vinha derrotando computadores desde os anos 1980. Um ano antes, em 1996, ele tinha novamente derrotado a tecnologia ao vencer o IBM Deep Blue, o computador mais avançado da época. Mas, ao contrário dos humanos, a máquina não se abalou, ela aprendeu e, em 1997, fez o inimaginável: derrotou toda a espécie humana em um jogo.

Kasparov inicialmente se revoltou, mas a raiva passou e nos últimos 20 anos ele vem trabalhando em parceria com empresas para desenvolver a inteligência artificial e estudando como estabelecer esta parceria entre o ser humano e as máquinas, que, estas sim, serão imbatíveis.

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