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Falando com a alma de milhões (ou bilhões) de desconhecidos

Mais do que entender ou se adaptar ao Zeitgeist de uma época, Nile Rodgers ajudou a defini-lo


15 de março de 2018 - 11h53

(Crédito: divulgação)

Acabei de sair do evento mais interessante que vi até agora aqui no SXSW e sentei pra escrever enquanto as coisas ainda estão recentes na minha cabeça – definitivamente estou fazendo isso no calor da emoção. Nile Rodgers é provavelmente a pessoa viva mais relevante na sua área de atuação, um cara que entende com profundidade o funcionamento do business da música – hoje deu pra perceber um pouco o porquê disso.

Foram tantas lições em uma hora de conversa que não sei direito por onde começar. Alguns minutos antes tinha assistido a um painel bem interessante com a participação de uma das grandes referências de minha fase universitária, Faith Popcorn (o “Relatório Popcorn” foi leitura obrigatória pra toda uma geração de estudantes de Administração) e tive a oportunidade de trocar algumas palavras com ela. Foi legal, mas foi só o aquecimento…

Muitos talvez não o conheçam, mas certamente já ouviram muita coisa que Nile Rodgers fez. Com mais de 300 milhões de discos vendidos, ele produziu (e foi amigo e mentor de) músicos como David Bowie, Madonna, Diana Ross, Britney Spears, Prince, Eric Clapton, Daft Punk, Pharrel Williams, Christina Aguilera, Duran Duran, Lady Gaga, entre muitos e muitos outros. Compôs e arranjou centenas de músicas pra muita gente e com sua banda (CHIC) inventou um jeito novo de tocar guitarra, um novo gênero musical (a disco music) e lançou as bases pra outro (o hip-hop). Ganhou um monte de Grammys e recentemente entrou pra dois “Halls of Fame”: o do Rock’n roll e o dos “Songwriters”.

Ao falar sobre a sua infância, já a primeira lição. Nascido e criado no Bronx, num contexto bem conturbado em vários aspectos, ele veio de uma família de músicos – seu pai tocava em uma banda de música latina e afro quando esses estilos estavam começando nos Estados Unidos. Contudo o ponto mais importante de sua formação: o ensino de música era obrigatório no sistema educacional americano naquele tempo e ele só foi mais um menino que se beneficiou disso. Segundo ele, a música torna as pessoas mais disciplinadas e ‘smarter’ – e infelizmente o aprendizado musical não faz mais parte da rotina de muitas crianças hoje em dia.

A conversa foi meio desestruturada porque foi em formato de entrevista pra uma (muito competente) jornalista da BBC. Ao ser questionado sobre de onde vem sua criatividade – “super hitmaker” – Rodgers falou que tem muito a ver com matemática. Primeiro vêm à cabeça as fórmulas e ideias e depois ele usa a guitarra pra ver como elas soam, pra comprovar que são boas – será que podemos chamar de “prototipagem”? Ele também falou sobre situações em que orientou diversos artistas a, mais do que mexer na entonação da voz ou nas melodias das músicas, pronunciar as palavras de maneira diferente. E a razão básica pra isso: fazer com que mais pessoas estejam abertas à sua música, aproximar-se mais do público – o único que se negou a mexer no seu jeito de cantar foi outro gênio, David Bowie, com a deliciosa frase: “I speak english, you speak american”.

E tudo isso tem muito a ver com algo que ele aprendeu lá atrás, quando ainda era estudante – e acho que essa foi a principal lição da tarde. Ele rapidamente se destacou na turma, era exímio instrumentista e leitor de música – acabou indo pro caminho do jazz, pra onde iam os mais talentosos. Até que ouviu algo que redefiniu o rumo de sua vida e inspirou praticamente tudo o que ele fez dali pra frente. Um professor disse a ele: Toda música que atinge o #1 nas paradas é uma grande composição. Ele achou aquilo um absurdo e perguntou: Inclusive “Sugar, sugar”? (que provavelmente era a #1 naquele momento). O professor respondeu: Sim, mesmo essa era uma grande composição porque, como as outras, “falava com a alma de milhões de desconhecidos”. A partir dali ele entendeu tudo e começou a fazer as coisas inspirado por essa frase aparentemente tão simples. Aliás, ao falar sobre isso ele se emocionou bastante, embargou a voz e não conseguiu conter as lágrimas – foi um momento bem emocionante. Ali estava um ser humano de verdade, de peito aberto, expondo as marcas de sua vida – diante de uma audiência que obviamente também se emocionou e o aplaudiu muito.

Dá pra perceber o poder e a extensão disso, né? A música que ele queria criar tinha que fazer algum sentido pras pessoas, emocionar, fazê-las rir, chorar, dançar. E este é o ponto: ele estava falando sobre música, mas podemos extrapolar esse mindset pra qualquer coisa que tenha a ver com cultura – TV, cinema, literatura e, claro, propaganda. Algo que ganha as ruas e faz diferença na vida das pessoas deu certo, funcionou, chegou lá. “To speak to the soul of millions of strangers” é muito maior do que qualquer outro critério, crítica, prêmio ou avaliação técnica de especialistas – no caso da propaganda, é o que constrói marcas, o que vende, o que muda comportamentos, o que vira assunto nas rodas de boteco ou nos almoços de domingo.

E a disco music que ele ajudou a criar fez exatamente isso. Todos dançavam. Todos! Ele conseguiu com a música o que nenhum outro movimento social, político ou cultural da época conseguiu: aproximou e colocou no mesmo lugar brancos e negros (e latinos), gays e ‘straights’, conservadores e progressistas, hippies e rednecks. Num momento da história em que movimentos sociais contra desigualdades e preconceitos de todos os tipos eram incipientes, o que ele fez virou tema de muitos estudos acadêmicos e discussões sociológicas.“When everybody dance, you clap your hands”!

Ele falou também sobre trabalho duro. Sobre muitos fracassos e poucos sucessos – na verdade, não foram poucos, mas o que ele quis dizer é que botou a alma ali pra fazer eles acontecerem. Sobre o quanto é difícil se chegar num “Let’s Dance”, do David Bowie ou num “Like a Virgin”, da Madonna. E, claro, falou também sobre paixão. Além de ser um cara absurdamente inteligente e talentoso, ele é de fato muito apaixonado pelo que faz. Ao ser questionado pela entrevistadora sobre o porquê de ainda trabalhar tanto e continuar fazendo tanta coisa nova (e boa!) ele foi enfático: sou realmente um cara de sorte. Trabalho com pessoas interessantes, amo os músicos e bandas com quem passo tempo no estúdio, torno-me muito amigo de vários deles e amo ajudar a construir junto com eles coisas que fazem a diferença na vida das pessoas. Sei que é meio clichê, mas também é básico: quem não gosta do que faz não consegue entregar bons trabalhos, seja qual for a área. Paixão gera coisa boa – e vem um novo disco do CHIC por aí!

Mais do que entender ou se adaptar ao Zeitgeist de uma época, Nile Rodgers ajudou a defini-lo. O cara é um gênio do pop, decifrou a Matrix, escreveu – e protagonizou – a história. Suas lições vão muito além da indústria da música: esse jeito de pensar e fazer as coisas pode e deve ser extrapolado pra muitas áreas de atividade, especialmente aquelas que mexem com a emoção das pessoas como a propaganda. Thanks, bro!

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