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“É preciso ver o novo para criar o novo”

Nátaly Neri, creator, youtuber e formanda em ciências sociais, fala sobre o papel da tecnologia como ferramenta de empoderamento, futuro e a importância de sair da zona de conforto para buscar novas ideias e perspectivas

Isaque Criscuolo
16 de março de 2018 - 15h50

 

Tecnologia, empoderamento, futuro e diversidade são temas que se cruzam no SXSW. Nátaly Neri, creator, youtuber e cientista social, conversou com o Meio & Mensagem sobre o que viu e viveu no festival, os potenciais transformadores da tecnologia, a importância de sair da zona de conforto na hora de escolher os painéis e a relevância do festival para quem produz conteúdo.

O que foi o SXSW para você?

Ainda estou digerindo o que aconteceu no SXSW, afinal é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e dá aquele sentimento de que estamos perdendo alguma coisa. Quando escolhi o que queria ver, tentei me colocar fora da minha zona de interesses, coisas diferentes do meu olhar, afinal é um olhar enviesado para minhas questões. Essa foi a maneira que encontrei para pensar o novo e colocar em perspectiva aquilo que já sei sobre mim e o sobre o mundo ao meu redor.

Vi algumas palestras sobre inteligência artificial, machine learning e tecnologia que falavam sobre como esta tecnologia vai interferir e interfere na forma como existimos enquanto humanos, nos direitos humanos e nas configurações jurídicas e constitucionais. Foi o ápice de toda a experiência aqui, afinal são coisas que não estou necessariamente refletindo porque como ativista e estudante de humanas não estou perto das discussões da comunidade científica. É importante estar perto desta comunidade, afinal quando estamos falando de avanços científicos, estamos falando de sociedade e falar sobre sociedade e tecnologia é falar também de mulher, de população negra e da possibilidade de criar e vislumbrar um futuro muito melhor ou muito mais complexo do que esse em que vivemos.

O legal de eventos como o SXSW é que ele traz muita coisa nova e não coisas que já foram exaustivamente pesquisadas e que se transformam em resumos nos painéis. É um festival sobre as coisas que estão acontecendo agora e que ainda nem começaram a acontecer. Portanto, talvez seja um espaço gigantesco de previsão do futuro. Um espaço para que tenhamos ideia de quais serão os assuntos que estarão na boca de todo mundo nos próximos anos e pensar novas possibilidades. Vi um imediatismo muito forte nas discussões, as pessoas conversando sobre coisas que ainda estão numa fase de primeiras impressões.

Em termos de diversidade, como foi o SXSW?

Em relação à diversidade, as mesas que fui não necessariamente tinham essa constituição diversa e acho que isso acontece porque os assuntos estão fechados em suas comunidades. Existe uma imagem já construída dos indivíduos que estão nesses espaços, mas isso não me incomodou porque sei que essa é uma realidade aqui. Estou muito feliz por estar nesse lugar e não ter deixado de assistir alguma mesa por não ter figuras femininas ou negras. A maior parte dos painéis que assisti foram de homens brancos que não necessariamente se encontram com as minhas questões, mas que me ajudaram a organizar algo que estou pensando há algum tempo e vou levar daqui como uma grande máxima: é preciso ver o novo para criar o novo. Quando passamos muito tempo pensando e falando sobre as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, vemos poucas possibilidades. É por isso que quis sair da minha zona de conforto. A quantidade de coisas que aprendi aqui e que não sabia antes é surreal e já está me ajudando a pensar muitas coisas. O conhecimento humano se desenvolve no momento em que colocamos nossos pensamentos em perspectiva de algo novo e totalmente diferente do que estamos acostumados.

Encontrei por aqui também uma quantidade enorme de pessoas diferentes. Embora seja um espaço majoritariamente ocupado por nativos, é muito fácil se perder com vários sotaques e experiências que as pessoas compartilham.

Você viu algum painel sobre questões que também estão sendo discutidas no Brasil?

No Brasil, estamos discutindo algo muito importante no momento que é a segurança na internet e o cyberbullying. Como vamos usar da tecnologia para defender as pessoas que estão usando a internet para fazer ativismo e defender os direitos humanos? Já participei de várias mesas sobre o tema desde o início do ano e no Brasil ainda não temos muitas respostas. Vemos ataques na internet com grandes celebridades e temos uma dificuldade jurídica de identificar os infratores quando estão organizados em grupos. Não tem como denunciar um grupo por racismo ou homofobia, apenas uma pessoa. Entretanto, quem ataca ativistas não se organiza de forma individual. A legislação brasileira ainda está caminhando aos poucos e aqui assisti um painel que falava sobre este assunto, mostrando o quanto estão um pouco mais avançados e encontrando muitas respostas para as mesmas questões que estamos fazendo no Brasil.

Como a tecnologia, tão presente no festival, pode ser uma ferramenta de empoderamento?

Nos EUA é muito comum ver indivíduos negros e coletivos negros agindo de forma absolutamente engajada com tecnologia em questões múltiplas e diferenciadas que vão além dos direitos humanos. Isso é fundamental porque é através da tecnologia que conseguimos construir melhores condições de vida para existir, principalmente como população negra. Precisamos pensar em alternativas revolucionárias para melhorar a condição humana, em especial a condição daqueles que precisam.

Você veio cobrir o SXSW pela Natura. Como foi esta experiência?

Fiquei bastante feliz pela liberdade que me deram para produzir o meu conteúdo e passar tudo isso pelo meu filtro individual, afinal a Natura percebe que as narrativas são contadas de acordo com as nossas experiências. Se estou num ambiente com tanta inovação, novidade e criatividade, porque continuar contando e mostrando as experiências pela ótica que a marca já está acostumada? A marca quer levar novidades para o público com olhar que não é da marca, mas que também conversa com o que acreditam.

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