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Tão perto, tão longe

Ao assistir Obama e entender seus desafios, não pude evitar de pensar na situação política atual no Brasil


12 de março de 2016 - 13h32

Acordei com a notícia de que não fui sorteada para ver o Obama. Pelo menos ao vivo: a programação mudou para acomodar Mr. President, e a entrevista foi transmitida em várias salas. E todo o SXSW parou para ver Obama (e você pode ver aqui).

A conversa era sobre participação cívica, e o motivo de Obama estar falando para aquela platéia é a relação disso com a tecnologia e o meio digital. Obama lembrou de um grande vexame de seu governo – quando lançou o programa de seguro de saúde e o site simplesmente não funcionou. O problema, diz ele, é que o sistema utilizado pelo governo para contratar software é o mesmo usado para comprar cadeiras, ou lápis (quem já trabalhou para o governo no Brasil, com as licitações por menor preço, entende).

Mas quem tem amigos tem tudo: chamou o pessoal do Vale do Silício para arrumar a bagunça, iniciando uma colaboração que pretende ser contínua. Ou seja, Obama estava lá para nos recrutar.

A questão é que a participação cívica das pessoas nos EUA é baixa. Ninguém quer conversa com o governo; só lembram dele quando têm que fazer o imposto de renda e quando ficam duas horas na fila do DMV (o Detran deles). Para que a tecnologia possa ser uma ferramenta para resolver essa questão, no entanto, é preciso primeiro resolver outra. É difícil superar o carisma de Obama, e sua habilidade para ganhar uma platéia, mas o entrevistador, Evan Smith, do Texas Tribune, teve seus momentos de brilho – como quando questionou o presidente sobre a dificuldade de incluir digitalmente as comunidades latinas e negros. Obama diz que o governo tem trabalhado nisso, mas as pessoas não veem o que o governo faz “porque isso não é interessante”.

Obama quer fazer, mas nem sempre consegue, e sobrou alfinetada para todo o lado: para o congresso, para “o outro partido”, para o governo estadual – que, segundo Obama, não tem interesse em que as pessoas participem e se informem (no Texas, a taxa de participação em eleições é muito baixa, as pessoas não votam). Eis o que ele quer que a gente, esse povo geek do SXSW, faça: “it is critical that all of you that are shaping this environment think of ways to engage people, and you have to be engaged as well”.

Não pude evitar pensar na situação política atual no Brasil. Em termos de participação cívica, o que temos é um voto obrigatório e uma ignorância monstra. E não me consta que nós, os trabalhadores digitais, estamos fazendo muita coisa para mudar isso além de esbravejar no Facebook.

Alessandra Nahra é arquiteta de informação e sócia da consultoria de UX Saiba+

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