O que é ser “real” mesmo?
A noção do que é real talvez precise ser revisitada
A noção do que é real talvez precise ser revisitada
17 de março de 2017 - 15h29

Tenho que confessar que estou saindo do SXSW um pouco confusa com a noção do que é “real”. E acho que não sou só eu. Depois de ouvir tantas vezes os termos artificial, virtual, modificado, modelado, decodificado; ver as inúmeras novas aplicações da tecnologia e toda discussão conceitual por trás, eu acho que vale refletir sobre o assunto.
Esse robô aí em cima é real? Vi algumas pessoas em dúvida se ele era comandado (tinha alguém fingindo que era) ou se tinha um homem lá dentro. Sim, tinha um homem lá dentro, então ele não era um robô real, nem com inteligência artificial, era falso.
E os perfis e posts dos seus amigos no facebook, são reais? Um inventor de notícias jornalísticas de peso e o dono de um perfil falso de facebook foram convidados pela Yasmin Green da Jigsaw, para participar do seu painel e reproduzir no palco, o trabalho de campo que ela faz pra desmobilizar conteúdos extremistas na rede. Foi chocante ver os dois tirando sarro dos seus posts e perfis, mesmo diante da seriedade da entrevistadora. O perfil falso era de um político que jamais existiu, do 15o condado de um estado com apenas 14 e que foi alimentado inclusive durante as eleições com implicações no resultados. Tudo isso “just for fun”.
E as selfies que você vê nas redes sociais, elas são reais? Seu amigo todo pimpão ali na Central Park e aquele monte de curtidas e comentários do tipo: NYC, tá podendo, hein? Vi uma sessão de apresentações de startups de universitários dos EUA e uma das mais elogiadas foi a de um app chamado Selfie Anywhere. Um banco de dados de fotos de fundo 360o para você tirar selfies extremamente realistas em qualquer lugar, escolhendo seu ângulo preferido. Não foi pra NYC, mas semana que vem vai para Paris.
E o filme Her? Todos aqueles diálogos podem acontecer de verdade diante da tecnologia que existe hoje? O Adam Cheyer, VP de engenharia e co-fundador da Siri e da Viv Lab disse ter ficado boa parte do filme validando a programação até uma cena específica em que a Samantha recebe boa noite do Theodore e pergunta: boa noite, eu posso ficar aqui te olhando? Aí ele entendeu que o filme era ficção. Hoje em dia, só sendo programador pra ter essa clareza.
Indo mais a fundo, um bebê com gene editado para ser um bebê absolutamente perfeito, rechonchudo, loiro e de olhos azuis é um bebê real? A Jennifer Doudna, Ph.D e professora de biologia celular e molecular da Universidade da Califórnia alertou que embora seu processo de edição de gene CRISPR-Cas9 tenha sido desenvolvido para livrar as células de algumas doenças, ela teme outros usos da inovação.
E um cérebro com neurônios editados, modificados, ou com a prótese neural que o Bryan Johnson da Kernel ambiciona desenvolver? A capacidade melhorada desse humano, que não é um robô, vai ser real ou artificial?
O fato é que já está muito difícil entender o limite entre o que é real e o que é artificial, o que é verdade e o que é ficção, o que é talento e o que é tecnologia implantada. E quanto mais a tecnologia avançar pra ser cognitiva e simular o padrão humano, mais isso vai acontecer.
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