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Douglas Rushkoff: dados criaram bolha e empresas quebrarão

Pioneiro no estudo da internet, autor do livro Team Human questionou valores e práticas das grandes companhias de tecnologia

Jonas Furtado
12 de março de 2019 - 11h27

Douglas Rushkoff: “seres humanos estão sendo vistos como o problema e a tecnologia como a solução” (crédito: reprodução)

A edição 2019 do SXSW tem sido marcada pelo acirramento nas críticas às práticas das maiores empresas de tecnologia do mundo, especialmente o Facebook. Foram muitos os painéis tomados por questionamentos quanto ao poder acumulado por essas companhias, que dominam praticamente sozinhas os mercados nos quais atuam, e ao uso pouco transparente que fazem dos dados coletados das pessoas. Poucos foram tão contundentes quanto o professor de teoria da mídia e economia digital da City University of New York, Douglas Rushkoff.

Um dos pensadores pioneiros de como o uso da internet afetaria as relações humanas e defensor de plataformas abertas e não comerciais para a solução de problemas sociais, Rushkoff destilou toda sua indignação com a ditadura de comportamento imposta pela indústria da tecnologia e dos dados – mas previu que o fim de algumas dessas empresas está mais próximo do que imaginamos, e se dará pela própria natureza insustentável de seus negócios.

Veja abaixo trechos da apresentação de Rushkoff, que foi transmitida por streaming – o autor do livro Team Human, mesmo nome do podcast de sucesso que comanda na NPR-One (braço digital da rádio pública norte-americana), cancelou sua ida a Austin alegando questões pessoais.

Viciado por algoritmos 

Na busca pelo crescimento econômico infinito, demandado pelo mercado financeiro, a internet se transformou sua ideia original de “o que podemos fazer pelas pessoas” em “como atrair cada vez mais pessoas para isso”. A internet se tornou menos sobre possibilidades e mais sobre vender coisas. Em vez de criar tecnologia que as pessoas pudessem usar, passamos a criar tecnologia que usa as pessoas. Toda vez que você liga o seu smartphone, ele sabe mais a seu respeito. E nós nem sabemos que tipo de informações eles sabem. Quero dizer, nós sabemos o que a indústria de smartphones e as redes sociais estão fazendo conosco: importando para nossos telefones algoritmos parecidos com os das maquinas de apostas de Las Vegas para que fiquemos viciados.

O império da imprevisibilidade

O que o Facebook faz? Seu objetivo é usar as informações que deixamos gravadas quando navegamos na internet para nos enquadrar dentro de um banco estatístico que ofereça pelo menos 80% de eficiência em previsibilidade de como será a nossa vida – se iremos nos divorciar, precisar de tratamento médico, trocar de gênero. A intenção é conseguir ainda mais informações e detalhes, como que tipo de relação você tem com comida, e não exatamente para vender para você alguma dieta especifica, mas para elevar essa previsibilidade para 90%. Esses 20% da humanidade que podem se comportar de maneira diferente, escolher um caminho nobre e original, esses são os verdadeiros inimigos da previsibilidade. É com esses 20% da humanidade que me preocupo. É disso que estamos abrindo mão para mecanizar nosso comportamento e aumentar a nossa previsibilidade.

Inversão de papeis

Há uma subversão no papel de humanos e máquinas. O mesmo acontece em outras indústrias. Já aconteceu com o dinheiro, que foi inventado para facilitar a transação comercial entre pessoas, gerar valor para as pessoas. Isso mudou completamente, o algoritmo por trás da movimentação de dinheiro hoje funciona para extrair valor das pessoas – é por isso, por exemplo, que pagamos juros. Vejam o exemplo das ações, que foram criadas para capitalizar empresas. Hoje, as empresas estão aí para servir as ações, os acionistas. O mesmo acontece com as empresas de tecnologia, que não estão mais a serviço das pessoas, mas sim do mercado.

Humanos não são o problema

O que acontece quando uma plataforma ou aplicação deixa de pensar em suprir as necessidades humanas para extrair valor por meio de dados coletados dessas pessoas? Essas empresas tentarão induzir condições e estados mentais que as permita gerar esse valor, amedrontando-as. Pessoas amedrontadas são mais fáceis de serem manipuladas. Twitter e Instagram precisam que reajamos como um réptil faria, pelo instinto, e não racionalmente. É isso que as plataformas querem. Isso não significa que Mark Zuckerberg seja uma má pessoa, que queira nos fazer mal. Ele apenas tem que servir seus mestres, que são os acionistas. O que estamos vendo é a deterioração da nossa sociedade: seres humanos estão sendo vistos como o problema e a tecnologia como a solução – ou pelo menos como um escape.

O paradoxo da conexão

Se os seres humanos se saíram bem até aqui, em geral, não é por ser uma das espécies mais competitivas, mas por ter desenvolvido os jeitos mais sofisticados de colaborar um com os outros, como a linguagem, a escrita. Televisão e computadores eram parte dessa energia colaborativa. A internet nos conectava, nesse sentido, e assim podíamos realizar trocas mais complexas. Nós ficávamos online para isso. Agora, desde que estamos substituindo nossa vida real pela tecnologia, ficar online nos mantêm desconectados.

O fim da bolha de dados

Quando dez mil funcionários do Google fazem greve porque não querem participar do desenvolvimento de um spyware ou um navegador maligno para a China, é um sinal de que a autonomia humana ainda tem sua função. Outro ponto positivo nisso tudo é que essas empresas estarão fora do mercado em pouco tempo. Toda a estratégia delas é baseada em dados. Continuam quase todas dando prejuízo, mas dizem aos acionistas que isso não importa, ‘olhe quantos dados estamos colhendo’. Quase todo o valor da Nasdaq (bolsa de valores onde são comercializadas as ações de empresas de tecnologia) está baseado em dados. E dados são uma fonte primária para serviços de marketing e publicidade, atividades que respondem por não mais do que 4% ou 5% da riqueza gerada por um país, em média. Ou seja, é algo insustentável, a não ser que apareçam com alguma outra coisa. Em algum momento, a publicidade não será o bastante e algo terá que ser comercializado de verdade.

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