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Relatório Técnico de Resiliência 2022, com John Maeda 

A transformação digital pode resultar no desaparecimento de muitas funções e também empresas


13 de março de 2022 - 19h49

Crédito: Thais Monteiro

Chamou a minha atenção o assunto resiliência, tendo em vista que a palavra não tem sido usada com muito orgulho após anos de apropriação pelos autores de auto ajuda. Entre tantos palestrantes renomados no primeiro dia do evento, John Maeda (Everbridge) teve a pauta em destaque em um dos palcos principais e em horário nobre, às 16 horas, em Austin, no SXSW. E não decepcionou.

Trouxe uma abordagem corporativa para o tema e surpreendeu a todos. Desde o início o chat foi invadido por contestações trazendo o conceito de *antifrágil, de Nassim Nicholas Taleb, pois, assim como eu, esperavam a perspectiva ultrapassada da palavra resiliência. O que fica claro é que o significado da palavra é que vinha sendo mal explorado. Na verdade existe, inclusive, uma revisão temporal: 

1627 – Resilience = Bounce Back (fácil recuperação)

1857 – Resilience = Bounce Back and Transform (fácil recuperação seguida de aprendizado e transformação)

Certo que o ponto focal de Maeda é o fato da resiliência vir da adversidade, mas não vejo meio de eludir nesse ponto, é um fato incontestável.

O Resilience Tech Report baseia-se no CX and Design in Tech Reports  (2015-2021), que previu corretamente a centralidade do design em produtos digitais para consumidores e empresas, assim como o paradigma do trabalho remoto e seu efeito equalizador.

O ponto de sensibilização do conteúdo de Maeda vem do momento em que ele aborda a evolução tecnológica em três áreas principais: no mundo físico, no corporativo e no digital. E classifica nossas emoções frente às novas tecnologias em: “não vejo impacto direto na minha vida”, “estou chocado, mas gosto” ou “serei prejudicado por essa mudança”.

É senso comum que enxergamos as novidades tecnológicas que tangem o nosso mundo físico geralmente com entusiasmo, assim como as mudanças no mundo digital. No entanto, aqui está o foco de Maeda: o impacto tecnológico nas empresas precisa e deve produzir resiliência. No entanto, muitas corporações ainda mantém o foco na eficiência, por ter como objetivo principal uma visão de curto prazo, onde a redução de custos e o aumento da produtividade prevalecem. Maeda inclusive traz os dois conceitos em um comparativo: empresas eficientes x empresas resilientes, onde a segunda aparece aceitando riscos, mas não qualquer um: “Risk is any uncertainty that matters”, se arriscam olhando para o que é verdadeiramente importante.

Ao mesmo tempo que destaca a importância de conectar forma e função para o design na tecnologia como um todo, ele trata os termos “flight” e “fight”, onde o primeiro desperta para a forma como vivemos a transformação, e o segundo sobre como nos defendemos dela. Ambos são igualmente importantes: eu vivo a transformação, mas sempre me preparando, adaptando e até mudando o que posso e faz sentido.

Biologicamente, nós reagimos às mudanças com medo, mesmo com a certeza de transformações constantes. É importante destacar que todo esse medo é, portanto, natural. E que, entre as emoções básicas do ser humano (medo, raiva, surpresa, desgosto, tristeza e alegria), somente uma, a alegria, é verdadeiramente positiva à primeira vista.

Gostei, especialmente, da visão de Maeda sobre tudo que é imutável e não está sob nosso controle. O controle que temos é sobre a forma como reagimos ao que acontece ao nosso redor ou que nos impacta diretamente. Então é unânime que precisamos passar pela fase do medo rapidamente. 

E, obviamente, o que vale para nós, cabe perfeitamente a toda e qualquer corporação. Empresas que decidem adotar uma cultura resiliente tendem a sobreviver mais e melhor. O tempo de vida das empresas tem declinado nos últimos anos (de 60 anos em 1958 para  15 anos em 2012). 

A transformação digital pode resultar no desaparecimento de muitas funções e também empresas, temos visto isso com uma rapidez assustadora. Ela inclusive nos deixa inseguros sobre em que acreditar. 

Ele trata profundamente sobre mudanças climáticas, biológicas, geofísicas, entre outras, e sobre até onde vai nosso controle e influência sobre elas. Diante da pergunta a respeito de quem tem direcionado a tecnologia nas corporações: o CEO, o CTO ou o Covid-19, preciso trazer a resposta da imensa maioria entrevistada?

Um resumo geral para o conteúdo de John Maeda destaca toda a urgência em tratar o design em tecnologia centrado no ser humano. Ele apresenta matriz de novidade e familiaridade, com o resultado de sentimentos dos usuários em cada quadrante. O desafio do design é aproximar o máximo possível os dois pontos, para que o usuário tenha o sentimento de que consegue se adaptar, pois de alguma forma essa transformação é familiar, mas que se mantenha surpreso e ansioso pela mudança. Afinal, empresas são feitas de pessoas. 

A provocação final da palestra nos deixa com aquela pulguinha atrás da orelha: as adversidades continuam como tendência mas que, até a resiliência tem seu lugar e seus limites, pois pode formar pessoas que não se surpreendem mais ou não se motivam diante da novidade. 

“Be risk verse. Not risk versed!”

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