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Homens versus máquina

Não é uma guerra contra as máquinas. Estamos acima disso. Somos os programadores.


14 de março de 2019 - 19h30

(Crédito: Gerd Altmann/Pixabay)

Tenho certeza que esta é apenas uma amostra do SXSW, a amostra que eu escolhi ver. Gosto do SXSW por causa do conteúdo e, mais importante, a possibilidade de conectar as ideias que estão rolando. Fazer sinapses. Um tema em especial me chamou atenção este ano, na falta de um nome melhor vou chamar de “humanos contra as máquinas”.

Roger McNamee, mentor de Mark Zuckerberg no início do Facebook, entrevistado por Nicholas Thompson, editor da Wired, trouxe a preocupação com o modelo de negócio atual da rede social. A plataforma usa dados para fazer a predição do que as pessoas vão consumir. Ao entender essa predisposição, passa a trazer conteúdos relacionados a este tema que acabam por interferir na escolha do consumidor. A ferramenta que, inicialmente, geraria apenas predição das ações de consumo do consumidor pode estar atuando na “modificação do comportamento”.

Douglas Rushkoff, na palestra homônima ao seu livro “Team human” chega a quantificar essa teoria. Segundo ele, os algoritmos têm 80% de acurácia nas previsões e sua interferência transforma em 90 ou 95% de acerto. A diferença, os 20% que chama de fator humano ou o livre arbítrio, são reduzidos com a imersão completa das pessoas em bolhas que as fazem pensar que aquele tema tem uma importância muito maior do que deveria.

São também bots que ajudam influenciadores digitais a crescer exponencialmente o número de seguidores e engajamentos – muitas vezes com perfis falsos. É o que alerta Steven Bartlett, CEO da The Social Chain Group. Em sua palestra, na qual apresenta o serviço de auditar os dados da audiência e interação dos seguidores de influenciadores digitais, prestado por sua empresa, ele traz informações chocantes sobre esse negócio. Mostrou perfis com mais de 100 mil seguidores, dos quais apenas 1 ou 2% eram pessoas (não fakes), e a evolução irregular de likes e comentários em posts vendidos para promover produtos de um anunciante.

Embora essas fraudes sejam uma pequena amostra do volume de pessoas reais nas plataformas, é importante entender que um novo conjunto de dados e análises é necessário para navegar por esses mares. As relações humanas e a recomendação das pessoas em quem confiamos ganham ainda mais importância com a ascendência da inteligência artificial. Este é o argumento de Neil Pasricha, na palestra “Building trust in a distrustiful time. “Em uma era de robôs, confiamos em cérebros”.

Talvez estejamos vivendo o momento de menor confiança de todos os tempos. Acelerado por uma onda de notícias falsas e o medo gerado pela nossa falta de compreensão das novas tecnologias.

Foi baseado neste medo do apocalipse tecnológico o conto narrado por Bruce Sterling, jornalista e autor de ficção científica, na sua tradicional palestra de encerramento do SXSW Interactive. Seu texto, um ensaio ao estilo cyberpunk – estilo literário com enfoque na “Alta tecnologia combinada a baixa qualidade de vida” – trata com boa dose de humor e sarcasmo todo este questionamento às big nine, as gigantes de tecnologia, que vivemos nesta edição do festival.

Todo este questionamento, na minha opinião, faz com que o SXSW tenha o efeito mais importante de todos: o de dar destaque ao que PODE, não necessariamente o que vai acontecer. Ao colocar holofote a estas visões, muitas vezes catastróficas, permite que as empresas e sociedade se aparelhem de artifícios e ações para evitá-las. Permite que os ajustes sejam feitos para continuarmos tirando proveito do desenvolvimento científico e tecnológico. Não é uma guerra contra as máquinas. Estamos acima disso. Somos os programadores.

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