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As lições de quem derrotou Donald Trump

Ainda vamos ouvir muito sobre Stacey Abrams


22 de março de 2021 - 15h26

Stacey Abrams (crédito: reprodução/twitter)

Historicamente, o SXSW tem a presença de ilustres personalidades do partido democrata palestrando e participando de painéis, afinal, Austin é um reduto democrata em um estado tradicionalmente republicano. Em anos anteriores me vem à mente Barack Obama, em uma palestra concorridíssima em 2016, e Alexandria Ocasio-Cortez, a deputada mais jovem a assumir um cargo no congresso americano, que deu uma entrevista muito aclamada com um clima de jogo de futebol em 2019. Esse ano, para mim, tem um quê a mais: os democratas derrotaram Trump nas urnas.

Por isso me dediquei a ver palestras que mostraram perspectivas diferentes desse enorme e multifacetado esforço da campanha Biden-Harris que, no início de 2020, enfrentaria um presidente carismático para sua base e líder de uma economia a todo vapor. Uma das falas que mais me chamou atenção foi de uma das pessoas chave para a virada de Biden: a escritora e community organizer (termo muito comum no mundo da política americana) Stacey Abrams. Stacey foi uma das principais responsáveis pela “virada” do estado da Geórgia que, assim como o Texas, foi escravocrata e há anos tradicionalmente republicano.

A entrevista de Abrams foi muito aguardada e realizada pela aclamada escritora de romances americana N.K. Jemisin. Em resumo, o trabalho de Stacey foi muito mais longo do que apenas uma campanha política — ela lançou um movimento chamado Fair Fight, que tinha o objetivo de conscientizar comunidades negras americanas sobre o poder do seu voto, além de combater juridicamente legislações que buscavam suprimir o voto destas comunidades com regras escusas e indiretas que escondem um racismo estrutural. O principal ponto de Stacey foi sobre, pasmem, storytelling. Ela disse que para convencer uma comunidade que tem um desprezo geracional pelo voto (no estilo “meu voto não fará a diferença”) é necessário incluí-la nas narrativas da política.

Ou seja, colocar o público no centro das histórias, explicando o papel da comunidade dentro da política e seus próximos passos necessários para que tenham um real impacto nas decisões regionais e nacionais. Ela reforçou esse ponto contando que não trabalha com tópicos para seus discursos e sim com o arco de narrativas (contexto, incidente, clímax e resolução) em suas falas — isso gera muito mais identificação e coloca um papel de dono de sua própria história a quem está ouvindo.

Mais um ensinamento de Stacey, dessa vez sobre mídia: “é fundamental encontrar as pessoas onde elas estão e não onde queremos que elas estejam”. Ela disse isso se referindo aos limites que nós mesmos colocamos no momento de selecionar canais prioritários para uma comunicação: na visão de Stacey, pré-selecionar os canais onde temos eleitores mais propensos é se limitar — fazendo isso estamos decidindo que pessoas fora destes ambientes favoráveis não irão votar em você.

Tudo bem quando falamos do mundo publicitário, em que temos um investimento limitado e precisamos otimizar e focar em canais onde temos mais chances, mas quando se fala em geração de um movimento cultural, me fez muito sentido o que ela trouxe. O que o trabalho de Stacey nos ensina sobre campanhas políticas é que a construção de um movimento vai muito mais longe do que uma campanha de um ano, por maior que ela seja. É um trabalho duro, de formiga, que exige sair da zona segura.

E esse é um dos pontos fundamentais para o público embarcar em suas ideias: quando você faz isso há muito tempo, de forma insistente, você está dizendo “eu não vou sair daqui” e “esse espaço é meu”. Ainda vamos ouvir muito sobre Stacey Abrams.

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